5 de setembro de 2014

De punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos. Artigo de Valério Arcary

Artigo em resposta ao artigo de Valter Pomar, "Quem não sabe contra quem luta não pode vencer", publicado aqui.

As virtudes dos homens são semelhantes ao voo dos pássaros. A ave que se habitua à paisagem rasteira perde o gosto pela altura. Sabedoria popular indiana Não deixes que as tuas lembranças pesem mais do que as tuas esperanças. 

Sabedoria popular persa 

Valério Arcary

Valter Pomar escreveu uma resposta instigante a um artigo publicado no blog marxismo21.org sobre as próximas eleições. Os dois temas mais interessantes da polêmica são a relação dos trabalhadores com os governos do PT, e a caracterização social das duas candidaturas que encabeçam as pesquisas de opinião, Dilma Roussef e Marina Silva. E, em consequência, o problema da tática eleitoral: como intervir na realidade concreta de forma a melhor defender os interesses dos trabalhadores. 

Um bom critério para esclarecer as diferenças é distinguir o essencial do secundário, valorizar os acordos e identificar as diferenças. Então, é bom esclarecer, retribuindo na mesma fórmula, que Valter Pomar é do ponto de vista pessoal, daquilo que pretende ser, de sua razão de viver, um marxista sincero, e tem o meu respeito. 

Mas sobre os dois temas, temos apreciações que são incompatíveis. Algumas questões menores são nuances, ou seja, diferenças de gradação ou de matizes. Outras são programáticas, portanto, irreconciliáveis. Além disso, na margem, farei um esclarecimento (1). 

A primeira questão grande remete à relação da classe trabalhadora com os doze anos de governos do PT. Temos acordo que uma maioria do proletariado brasileiro ainda está longe de esgotar a experiência política com o lulismo, mesmo depois de doze anos. As determinações desta relação duradoura, mas essencialmente eleitoral, quando o petismo degenerou em lulismo, são muitas e complexas. A chave da análise é que se trata de uma relação eleitoral, ou seja, muito inferior à que o PT tinha nas fábricas, grandes empresas, etc. Não é mais a mesma relação orgânica que o PT manteve nos anos oitenta. A força eleitoral do lulismo nos setores populares semiproletários, não é a mesma base social sobre a qual o PT se construiu. 

Diz Pomar: “a maior parte da classe trabalhadora faz um balanço desta experiência. Os que a consideram negativa, optam majoritariamente por candidaturas da oposição de direita. E os que a consideram positiva, optam majoritariamente por votarem Dilma e no PT”. 

Esta conclusão é insatisfatória para avaliar a relação da classe trabalhadora com os governos de coalizão liderados pelo PT, porque se restringe a uma leitura das pesquisas eleitorais mais recentes. Diminui o significado da desconfiança que cresceu durante doze anos, e o impacto de Junho de 2013. Ao não contextualizar, não quantificar, não identificar as dinâmicas, comete um erro perigoso: desvaloriza o desgaste do governo. A aprovação ao governo é, hoje, inferior a 40% em todas as pesquisas de opinião. Mas tinha caído para menos de 30% durante as manifestações de Junho de 2013. Só depois de meses se recuperou, sem nunca voltar aos patamares anteriores. 

Não tenho problema algum em admitir que, doze anos atrás, abracei uma avaliação de que o processo de desgaste da influência política do PT seria mais rápido. 
Ainda que seja importante lembrar que influência eleitoral não é o mesmo que hegemonia política. De qualquer forma, essa hipótese, e nunca foi mais do que um prognóstico, portanto, uma hipótese, foi construída considerando que um governo Lula, um governo de colaboração de classes, teria que realizar um ajuste econômico social terrível. O ajuste veio, e foi mesmo terrível. Palocci foi o homem do PT que costurou a relação com a Avenida Paulista, em nome de Lula. Esse é um dos homens do PT em quem Marina, seguramente, se inspira. Na verdade, não muito diferente do tipo de ajuste que a classe dominante espera do próximo governo em 2015, seja ele Dilma, ou Marina. 

Ficou demonstrado, amargamente, que estávamos errados sobre os ritmos do desgaste da experiência com Lula. Tem sido muito mais lento. Só alguns dirigentes do PT, como Mercadante, é que se julgam infalíveis como o Papa. Erramos na avaliação do ritmo, mas não da dinâmica. 

Associado ao prognóstico anterior, mas em outro nível de análise, apostamos na possibilidade de uma reorganização dos movimentos sindical, estudantil e popular pela esquerda, através de novas ferramentas de luta como CSP/Conlutas e a ANEL, indo além da CUT e da UNE, que permaneceram muito atreladas ao governo. Nesse terreno, acertamos mais do que erramos. Uma análise calibrada demonstra que a construção desses novos instrumentos era possível. Aqueles que apostaram na tática da hibernação, ou seja, permanecer dentro da CUT e da UNE, esperando a passagem de um longo inverno, não ficaram de costas para o que de melhor se desenvolvia como experiência dos setores mais lutadores da classe e da juventude? 

Acontece que o rigor na análise tem, às vezes, consequências importantes para a política. Aliás, foi Pomar quem puxou a minha “orelha”, recordando Lênin, e a necessidade de ser concreto, minucioso, meticuloso. De acordo. Mas, então, vamos combinar que análises da realidade não devem ser instrumentais. Uma análise marxista tem compromisso com a busca da verdade. 

A diferença entre nós é que Pomar valoriza, para minha surpresa, positivamente, esta terrível lentidão. Como isso pode ser julgado como positivo? Por que não houve ainda uma “ultrapassagem” pela esquerda? Tudo bem. Oferecemos o benefício da dúvida a Pomar. Positivo ou negativo são termos comparativos, portanto, relativos. Mas, como pode ser positiva a adesão eleitoral a um governo que, entre suas façanhas, foi elogiado por Bush e Sarkozy? Só se o raciocínio for “melhor com o Lulinha paz e amor” da colaboração de classes, do que com os partidos burgueses. Mas, então, quem é cético sobre o potencial político-social da radicalização da classe trabalhadora? Não é, também, sonambulismo, como em um sonho acordado, apostar em 2014 nos desenlaces possíveis da luta interna no PT? 

Na verdade, sendo mais rigoroso, já começaram deslocamentos à esquerda em setores de vanguarda. Os trabalhadores avançados e combativos já não respondem mais à autoridade de Lula. E até de massa, em algumas categorias, sobretudo, sindicais, como entre os professores, petroleiros, e outros. E se a maioria ainda é “lulista”, não é mais “petista”. A lealdade eleitoral pode ser a mesma. Mas são níveis de consciência muito diferentes. A regressão foi enorme, e a direção do PT foi responsável por esta deseducação. Porque aquilo que dirigentes como Lula dizem e fazem tem peso. A burguesia não o ignora e, por isso, se dedica, furiosamente, à desqualificação e desmoralização dos líderes que nascem das lutas. Criminalizar, perseguir, demitir as jovens lideranças para decapitar os movimentos sindicais e populares é uma estratégia permanente, porque uma massa de trabalhadores sem organização está condenada a ver suas lutas derrotadas. Viver, trinta anos depois, a nostalgia do PT dos anos oitenta como estratégia política, repito, é uma forma de hibernação ou sonambulismo. 

A consciência política média da classe operária, que é bom lembrar, em sua maioria, não viveu as grandes lutas dos anos oitenta, infelizmente, regrediu em relação ao patamar que atingiu pela experiência das greves nacionais de categorias, das Diretas em 1984, das greves gerais contra Sarney. Paradoxalmente, porque a formação da consciência de classe é assim, contraditória, não mantém mais a relação que seus pais tiveram com o PT, o que é progressivo, porque abre possibilidades à esquerda. 

O segundo tema parece mais simples, mas não é. Remete à avaliação de Marina Silva. Diz Pomar: “Arcary não denuncia como deveria a candidatura de Marina Silva como instrumento da direita, do oligopólio e do capital financeiro, como plano B do grande capital (...) Não esperava que Arcary tivesse a mesma avaliação que nós, acerca dos riscos da candidatura Marina. Mas fico surpreso com este nível de subestimação dos riscos envolvidos nesta candidatura”.

A mão ficou pesada, e Pomar é injusto nesta avaliação. Não temos diferença sobre o perigo que Marina representa como plano B de uma fração da burguesia. Marina é perigosíssima. E há mesmo a possibilidade de que venha a vencer as eleições. Não vou responder ao tema da crise da direção, porque é em si um problema teórico enorme. Mas não resisto à tentação de perguntar a Valter se não a considera uma traidora. Eu considero. E não vejo porque aqueles que tombaram à bala no Acre não deveriam julgá-la assim. Marina teria tido alguma vez a exposição política que conquistou, não fosse a luta dos seringueiros?

Não adianta “panicar” diante da onda Marina. Toda a esquerda deve, realmente, denunciá-la, implacavelmente, sem hesitações. Mas, repito, não estamos diante de um armagedon entre o bem e o mal. Há uma evidente diferença entre aquilo que Marina representa, e a percepção que a juventude assalariada tem dela. Não há nada que autorize concluir que a imensa maioria dos trabalhadores que hoje sinalizam voto em Marina esteja escolhendo um voto à direita. Muitos estão votando somente em uma candidatura de oposição, sem ter qualquer clareza do projeto de Marina e das relações que ela está costurando com a classe dominante. Não são poucos os que imaginam até que Marina pertencia a uma das alas radicais do PT.

A questão que nos diferencia, é que Marina não está sendo apoiada em bloco pela burguesia, mas por uma fração da classe dominante. A burguesia não tem só um candidato nestas eleições. Uma fração da burguesia tinha como candidato preferencial Aécio Neves. Outra flertava com Eduardo Campos. Mas a mais elementar honestidade intelectual exige reconhecer que muitos líderes burgueses têm apoiado o governo, e a reeleição de Dilma Roussef. Os três candidatos têm projetos de gestão que se resumem à regulação do capitalismo, e ainda que as diferenças entre eles existam, são pequenas. 

Um dos escapismos da análise de Pomar é a tendência a substituir a análise rigorosa de classes e frações de classes, por fórmulas imprecisas, dúbias, confusas, como “mais à direita” ou “mais à esquerda”. E quando os cenários ficam mais complicados, como em um segundo turno, temos as escolhas “menos à direita”. Assim o problema do caráter de classe do que representa a candidatura do PT está resolvido: Dilma estaria mais à esquerda que Marina. E tem o apoio eleitoral entre mais pobres, podemos ir dormir tranquilos. 

O marxismo não é compatível com esta nova disciplina: a geografia eleitoral. Substituir a análise de classe pela cartografia política, este jogo espacial obscuro, tem consequências embaraçosas. A campanha de Dilma está atacando Marina, repetidamente, pela direita, e não pela esquerda. Ao defender que um presidente deve possuir uma base estável no Congresso Nacional, a campanha de Dilma está usando contra Marina o mesmo argumento que foi usado contra Lula em 2002. Tenho a certeza que Valter Pomar será o primeiro a concordar que a chantagem que está sendo feita de que se Marina for eleita poderá ter que renunciar como Janio Quadros, por exemplo, é absurda. Ela é contraditória, por exemplo, com a caracterização de Marina como a candidata que unifica a classe dominante. Ou ela é uma candidata que já foi abraçada por frações importantes, e não terá, portanto, problemas maiores em garantir maioria no Congresso Nacional, ou ela terá problemas, mas então não pode ser satanizada como sendo a Lucrécia Borgia da Avenida Paulista. 

Acontece que ninguém menos do que Dilma, segundo a imprensa por aconselhamento de Lula, tem sinalizado para a burguesia que um segundo mandato será diferente do primeiro, ou seja, um novo Ministério mais amigável para a Avenida Paulista. Por isso é tão desconfortável o posicionamento da esquerda petista. Não estão de acordo com a política econômica que a candidatura Dilma defende, opõem-se às metas do superávit primário, à elevação dos juros dos últimos meses, à liberação do fluxo de dólares, que são a principal orientação do Planalto para ganhar a confiança da burguesia para um segundo mandato. Mas, atenção, não estão satisfeitos, também, com a política para a Reforma Agrária, porque apoiam com razão as crítica do MST. Nunca foram entusiastas dos limites assistencialistas do Bolsa-família. Já perderam as ilusões na política do Itamaraty. Em resumo, é preciso procurar com muito boa vontade, minuciosamente, para encontrar alguma política do Governo Dilma que a esquerda apoie. No entanto, as duas principais correntes nacionais da esquerda petista, AE (Articulação de Esquerda) e DS (Democracia Socialista) insistem em apoiar o governo e são entusiastas da campanha de Dilma. Convenhamos, é mais do que estranho - depois de doze anos - é bizarro (2). 

Mas, depois da frustração que tem sido os Governos do PT, e diante da perspectiva torturante de um quarto mandato ainda mais à direita, parece incrível que ainda priorizem a luta interna. Se os melhores militantes nas fábricas, nos acampamentos, nas empresas e escolas – os mais lúcidos entre os veteranos, e os mais corajosos entre os jovens - já estão se fazendo as grandes perguntas estratégicas, então é porque os seus líderes estão muito atrasados. Como dizia Rosa Luxemburgo, “estão de punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos”.


(1) O debate na PUC/SP ao qual Valter Pomar se referiu aconteceu uma semana depois do dia 20 de junho, quando foi revogado o aumento das tarifas por Haddad, portanto dia 27/06. Correu muito bem, e creio que foi filmado pelos colegas do NEILS. Não disse nada diferente do que escrevi naquelas semanas. Não foi prevista a iminência de insurreição alguma. Defendi, certamente, a atualidade de uma estratégia insurrecional em oposição à eleitoral. 

(2) Alguns explicariam esta insistência tática com um argumento estritamente eleitoral: os dirigentes da esquerda petista teriam que se resignar a um cálculo realista de possibilidades de renovação de mandatos, considerando que a sobrevivência eleitoral exterior ao PT seria muito difícil nas condições impostas pelo coeficiente eleitoral. É um argumento muito simples, mas poderoso. Esta teimosia estratégica que desafia o bom senso exige uma explicação marxista mais complexa, portanto, uma explicação que deve condicionar os enfoques da análise política às pressões de classe. Se existe um padrão regular e recorrente na história da esquerda mundial é o que nos ensina que, em situações defensivas, a tendência moderada, portanto, programaticamente reformista, foi sempre esmagadora maioria. Nessas circunstancias, o centrismo, que oscila no terreno da tática, erraticamente, porque não tem âncora estratégica, permanece em sua órbita de atração, enquanto as posições revolucionárias estão condenadas a ser uma minoria. Isso não é difícil de compreender. Só em situações revolucionárias as ideias anticapitalistas podem conquistar maioria, porque somente diante de uma profunda desmoralização e divisão burguesa, a perspectiva da luta pelo poder é, politicamente, visível por milhões.

0 comentários:

Postar um comentário