13 de março de 2014

Não há dirigentes infalíveis. Artigo de Valério Arcary

13/03/2014 - Artigo de Valério Arcary

A História esclarece duas grandes “crises internas" do bolchevismo no ano da revolução. Na primeira, Lênin, que acabara de voltar da Suíça, apresenta suas “Teses de Abril” e "rearma" politicamente o seu partido para a guerra contra o regime de fevereiro; na segunda, no penúltimo estágio da revolução, os defensores e adversários da insurreição se enfrentam mutuamente no Comitê Central bolchevique (...) Em ambas as crises, somos levados a sentir que é dos poucos membros do Comitê Central que a sorte da revolução depende: seus votos decidem se as energias das massas devem ser dissipadas e derrotadas, ou dirigidas para a vitória. O problema das massas e lideres é apresentado com toda a sua agudeza e quase que imediatamente as luzes focalizam de forma ainda mais  limitada e intensiva, um único líder, Lênin. Tanto em abril como em outubro Lenin fica quase que sozinho, incompreendido e renegado pelos seus discípulos. Membros do Comitê Central quase queimam a carta na qual ele insiste em que se preparem para a insurreição, e Lênin resolve "travar a guerra" contra eles e se necessário fôr recorrer as fileiras, desobedecendo a disciplina partidária. "Lenin não confiava no Comite Central – sem Lenin.", comenta Trotski, e "Lênin não estava muito errado nessa desconfiança" . Em cada crise, porém, acabou convencendo o partido a adotar sua estratégia e lançou-o na batalha  Sua ousadia, realismo e vontade concentrada surgem da narrativa como os elementos decisivos do processo histórico, pelo menos da mesma importância que a luta espontânea de milhões de trabalhadores e soldados. Se a energia destes foi o "vapor" e o partido bolchevique o "êmbolo" da revolução, Lênin foi o condutor. Trotski enfrenta, aqui, o problema clássico da personalidade na História e, talvez, tenha menos êxito ¹  (grifo nosso)
                                                                                                                                   Isaac Deutscher
          
Não encontramos nas lutas sociais correspondência direta entre os interesses de classe e representação política. A luta política é uma expressão da conflitualidade dos partidos entre si e das classes entre si, mas também destas com as suas organizações. Nenhuma classe é tão homogênea neste século que possa prescindir da representação em diferentes partidos. 

O marxismo nunca defendeu que as classes encontram sempre os porta-vozes adequados de seus interesses econômico-sociais, e menos ainda entre estas aspirações imediatas e os projetos históricos. Os desencontros entre os sujeitos sociais e os sujeitos políticos não são inusitados. Esta é quase sempre a regra. O erro político não pode deixar de ser considerado. Mas ele só pode ser apreendido, na sua dimensão plena, se guardarmos as proporções que separam o tempo político do tempo histórico. No tempo curto da pequena política o que parece uma vitória, pode demonstrar-se, em um tempo mais longo, uma derrota. Nenhuma classe tem líderes infalíveis.  

Uma das imensas contribuições do marxismo para a história foi que não se deveria exagerar o papel dos homens e mulheres que se destacaram à frente dos acontecimentos. As luzes da ribalta sobre o seu protagonismo poderia ocultar, por um efeito de ótica, que eram a expressão dos interesses e vontades de milhões de pessoas anônimas que encontraram neles os seus porta-vozes. Diz Deutscher que o papel dos líderes seria, em momentos decisivos, pelo menos, da mesma importância que o protagonismo das grandes massas. Nesta polêmica encontramos as duas posições extremas, e inúmeras intermediárias. Entre a defesa da função insubstituível do chefe e a desvalorização do desempenho dos dirigentes, muitas mediações.

Mas o erro, irrelevante em circunstâncias normais, só ocupa um lugar decisivo, irreversível, no calor das situações revolucionárias. Porque, então, as margens de manobra do Estado para absorção das pressões no interior das instituições do regime se reduz, com a dualidade ou multiplicidade de poderes, que deslocam o centro da política do espaço reduzido que ela ocupa em situações de estabilidade, para a esfera das ruas. Quando o juízo em relação ao futuro se decide na escala de semanas, ou no máximo de meses, e não de anos. 

Em tais momentos, os erros podem ser fatais para todas as classes envolvidas na luta. Não parece razoável que os erros políticos não vitimem a representação política de todos os grupos sociais em conflito. Não há imunidade ao erro. Mas a possibilidade de erro é muito maior quando um só, ou muitos poucos decidem. 

O tempo da política é sempre o do presente. O tempo do futuro é sempre uma aposta. Os interesses mais históricos estão sempre dependentes de cálculos, apreciações, julgamentos que envolvem prognósticos e perspectivas mais complexas. A capacidade maior ou menor de cada classe de conseguir ter seus interesses bem representados foi muito variada. A formação da liderança de cada classe, ou fração de classe, depende de inúmeros fatores, e sempre foi mais difícil para as classes exploradas e oprimidas. Estando outros fatores, relativamente, equilibrados, ou anulados, a diferença de qualidade da organização de cada classe para a luta, que depende da capacidade dos líderes, tem enormes consequências. 

Vivemos uma época histórica na qual a representação de interesses, crescentemente, não é mais possível através de dirigentes individuais, ou caudilhos. Depende de sujeitos políticos coletivos. A forma-partido corresponde a esta complexidade, porque repousa na defesa de um programa, não somente da credibilidade ou carisma de uma personalidade. 

A história seria incompreensível, se não considerarmos a história dos erros políticos. Erros das representações das classes dominantes, por exemplo, que acreditaram ser possível a preservação de uma ordem sem mudanças, muito além do que se tinha tornado tolerável para as amplas massas. Todas as revoluções (e as contrarrevoluções) abriram as portas da transformação política e social explorando esses erros: e se os Bourbons tivessem aceitado uma passagem para monarquia constitucional mais cedo? E se o Czarismo tivesse ampliado as margens de reformas de sua dominação após a derrota da revolução de 1905?, E se a república de Weimar tivesse acelerado as reformas sociais? Então... 

Ensimesmadas na ilusão da historicidade de seu domínio, pela soberba que o controle do Estado por um longo período alimenta, as classes proprietárias desprezam os repetidos sinais e alertas que revelam que o amanhã não poderá ser como foi ontem. Existem limites. Quando uma classe dominante exige sacrifícios das massas para além do que essas consideram razoáveis, ou seja, quando as massas não confiam mais que as suas vidas poderão melhorar, ou ainda, quando se convencem de que não deixarão de continuar piorando, as diferentes percepções do tempo do que seria possível se distanciam umas das outras. 

Esta profunda mudança nos sentimentos da maioria do povo está na raiz do breve intervalo histórico que definimos como situação revolucionária, ou seja, aqueles momentos de iminência da revolução. Qual é a natureza do erro? Que uma classe dominante despreze os sinais de insatisfação popular seria uma conclusão banal. Não porque esses sinais sejam raros. Seria o mesmo que reafirmar, pela enésima vez, que a crise econômica é a mãe da crise política e social. Ou que esta se manifesta, primeiro, como crise de governo (à que correspondem, divisões internas, disputas de frações, incapacidade de iniciativa, perda de rumo e paralisia) e se esta não se fecha e se agrava, precipita-se uma crise de regime (que se traduz em desautorização aberta do governo, desmoralização das instituições). 

Uma menor margem de erros políticos a favor de uma classe ou de outra pode decidir o sentido da luta. Uma chance histórica pode se perder: serão, então, necessários anos, ou até um novo período histórico, décadas, para que uma nova oportunidade se abra outra vez. O que significa que a crise se manifesta nesta urgência de futuro. Lênin ao defender a insurreição depois da derrota do golpe Kornilov, desde setembro de 1017, era consciente desta urgência.

Ao redor de Lênin e Trotski, operários russos durante o 2º aniversário da Revolução de Outubro, em Moscou

Em resumo, o erro consiste em uma cegueira diante de uma correlação de forças que se altera: ou porque se exige o que não é possível, ou porque se hesita e se adia o que deveria ser incontornável. Mas, sejamos mais rigorosos, não são as classes que erram. São aqueles que as conduzem, comandam, lideram. Entre as classes e suas direções existe uma relação muito contraditória e sutil. As ideias dos partidos só se transformam em força material, quando penetram nos “corações e mentes” da multidão. 

Ou seja, os partidos precisam manter relações de diálogo com o humor das classes nas quais se apoiam, ou estão condenadas à marginalidade. Mas, paradoxalmente, quando sucumbem à quase sempre volúvel pressão dos estados de espírito das massas estão, de alguma maneira, cavando a sua própria sepultura. Porque essas são instáveis, e seu horizonte é muito limitado ao presente imediato. As massas aplaudem as conclusões às quais já chegaram, mas esperam de seus chefes que esses vejam adiante, indiquem um caminho que elas intuem, mas desconhecem. Assim a relação partido/classe é uma relação de conflito inexorável: e este conflito se expressa nas relações de todas as classes, com os seus partidos e dirigentes.

A própria burguesia considera como seus grandes líderes, os chamados estadistas, aqueles que, retrospectivamente, marcharam contra a maré da pressão mais imediata das circunstâncias, não cederam às pressões e sendo inflexíveis, governaram para o futuro, e não para a próxima semana ou eleição. 

Nesse sentido, a situação revolucionária é, também, o momento em que a crise de direção das distintas classes em conflito se manifesta em uma substituição ininterrupta das representações políticas, que se sucedem uns aos outros: nas classes proprietárias, cedendo o lugar, tendencialmente, aos que demonstram maior decisão, indo mais à direita; nas classes despossuídas, deslocando os partidos mais moderados, e procurando os que estão mais à esquerda. 

¹ DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.250.

1 comentários:

Não seria mais coerente com toda a linha do texto, ao invés de enveredar em urgências e forjar uma direção insurrecional; buscar uma paciência para as massas atrelada ao combate da ideia de que não devem esperar, clamar, idealizar os rumos dados pelos chefes; buscar empoderar-nos e entender que a classe só tem a si mesma e que a vanguarda é um fenômeno de movimento? Uma questão pra debate.

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