3 de dezembro de 2013

As primeiras lições da ocupação e da greve da USP

03/12/2013 - Por Arielli Tavares

As lições da mobilização que se encerra serão fundamentais para construirmos os acertos políticos do futuro.

 - Desde o dia 01 de outubro, a USP vive seu principal conflito político dos últimos anos. A greve geral estudantil e a ocupação do prédio da reitoria mobilizaram milhares de estudantes contra a estrutura de poder e a elitização da universidade.

A mobilização dos estudantes da USP não foi a única que marcou os últimos meses. O Brasil vive uma conjuntura de inúmeras lutas locais e por categorias e enfrentamentos radicalizados que refletem a nova situação política no país, aberta com as jornadas de junho.

No entanto, diferente dos outros processos que marcaram a atual conjuntura, o conflito político da USP acabou em uma derrota do movimento estudantil quando uma importante vitória estava em nossas mãos. 

Analisar as razões dessa derrota é a tentativa de nosso artigo. Com ele, a juventude do PSTU espera contribuir ao debate que, sem dúvida, o conjunto do ativismo já começou a fazer.

Uma luta que ganhou a USP e a sociedade 
O ato convocado e construído pelo DCE, em 01 de outubro, terminou com a ocupação da reitoria e uma assembleia com mais de mil estudantes. A assembleia aprovou greve geral estudantil por tempo indeterminado.

Nos dias seguintes, a mobilização foi ganhando força e atingindo toda a universidade. Chegamos a mais de quarenta cursos em greve, somando três campi e dezenas de milhares de estudantes paralisados.

A força do movimento conquistou a comunidade acadêmica e a opinião pública, neutralizou a imprensa e, acima de qualquer expectativa, obrigou a Justiça a reconhecer a ocupação da reitoria enquanto uma ação política legítima.

Essas vitórias políticas foram muito importantes e poderiam não só derrotar o projeto político da reitoria, mas igualmente arrancar melhorias concretas nas condições de estudo de milhares de alunos.


Assinar o termo era um passo a caminho das vitórias
As vitórias políticas do movimento estudantil exigiram da reitoria uma resposta às nossas reivindicações. A nossa força obrigou a reitoria negociar com o movimento e a ceder, fazer concessões contra sua vontade.
As reuniões de negociação avançaram até um termo de acordo proposto pela administração da universidade. O termo atendia uma parte de nossas pautas, principalmente as relacionadas à permanência estudantil, como o reajuste das bolsas, novos prédios de moradia e a ampliação do funcionamento dos bandejões.

Neste momento, havia apenas nove cursos em greve e era possível notar claros indícios de que a tendência da mobilização já era o refluxo, com atos menores e atividades esvaziadas. Avançar mais até a alteração da estrutura de poder da universidade dependeria de colocar a luta num estágio superior de mobilização, a começar pela comunidade universitária em seu conjunto, unindo estudantes, professores e funcionários, por exemplo, em torno à greve geral universitária.

Neste marco, com a força do movimento chegando ao seu limite, o termo de acordo era uma conquista importante, na medida em que continha avanços significativos, vitórias que o movimento estudantil da USP não alcançava há anos.

O sentimento de vitória se refletiu em dezenas de assembleias de curso que avaliaram o termo de acordo e concluíram, em sua maioria, que a melhor decisão era recuar da greve e da ocupação, garantindo o que havíamos conquistado no termo de acordo.

Ele não era o conjunto de nossos anseios ou a totalidade de nossas reivindicações, mas era o acordo possível de arrancar do governo e da reitoria no momento. Ao mesmo tempo, essa vitória colocaria a burocracia universitária numa grande defensiva, gerando condições para seguir a luta no próximo semestre num patamar mais avançado.

A política da ultraesquerda levou o movimento à derrota
Porém, isso não se refletiu na assembleia geral do dia 06/11. Os setores que votaram nas assembleias de curso por aceitar o acordo e pelo fim da greve e da ocupação não foram à assembleia geral. Assim, por uma maioria apertada, 750 contra 550 votos, a posição majoritária da assembleia negou o acordo e manteve a greve e a ocupação, desconsiderando a opinião das assembleias de curso.

O erro cometido pelo movimento está intimamente ligado à política irresponsável da ultraesquerda, notadamente da Liga Estratégia Revolucionária (LER), do Movimento Negação da Negação (MNN), do Partido da Causa Operária (PCO) e do Partido Operário Revolucionário (POR). Essas correntes, aliadas aos setores anarquistas, defenderam contra o termo de acordo e transformaram uma vitória do movimento estudantil da USP numa grande derrota.

A proposta desses grupos dialogou apenas com a opinião e a vontade do setor mais à esquerda da vanguarda, que na luta da USP se divorciou do sentimento da maioria dos estudantes. A ultraesquerda orientou sua política, única e exclusivamente, a serviço de sua autoconstrução, de sua boa relação com os indivíduos mais radicalizados da luta.

Dessa forma, propôs as iniciativas aparentemente mais à esquerda, mesmo que elas deixassem o movimento mais suscetível à repressão e ao isolamento. Na USP, o objetivo de sua política é sempre ficar à esquerda do DCE, com propostas mais radicais, mas sem nenhum poder de mobilização e diálogo com a massa estudantil.

O resultado da assembleia e o refluxo do movimento levaram ao endurecimento da reitoria que retirou o termo de acordo, fechou as negociações e conseguiu a reintegração de posse do prédio. A resposta da ultraesquerda, por sua vez, foi aprofundar o isolamento do movimento, tomando medidas mais esquerdistas, que provocaram a derrota definitiva da luta dos estudantes da USP.

Degeneração política e moral do movimento são produtos da política sectária
O resultado da política derrotista da ultraesquerda foi o isoamento completo do movimento e o fortalecimento da reitoria. Essa nova conjuntura, aberta depois do grave erro da assembleia geral, acabou com a prisão de dois estudantes inocentes que foram espancados e torturados pela Polícia.

Infelizmente, as consequências da derrota não pararam por aí. Antes mesmo da reintegração de posse, o movimento já estava em processo de degeneração política e moral, fazendo surgir todo tipo de práticas repudiáveis, como calúnias, ações provocativas e até agressões.

Tudo começou pelo desrespeito às deliberações do movimento e às orientações da comissão de segurança da ocupação da reitoria, organismo eleito pelos estudantes em luta com a função de garantir a proteção dos ocupantes e a preservação do prédio.

Depois, veio a festa “Atentado Contra a Moral e os Bons Costumes” que acabou na invasão do centro de vivência onde ficam as sedes do DCE e da APG em reforma atualmente. O infeliz “incidente” resultou na destruição do espaço, com a quebra de aparelhos eletrônicos e o incêndio dos móveis.

Esse tipo de ação não poderia se esperar de grupos de esquerda e de ativistas do movimento estudantil, pois um ataque às entidades representativas dos estudantes só poderia vir, em teoria, de parte da polícia ou de bandos fascistas.

Por fim, houve também a covarde agressão promovida pelo PCO a dois militantes da juventude do PSTU. Uma atitude à altura das piores burocracias, acostumadas a resolver disputas políticas por meio da força física.

O desrespeito às deliberações do movimento, as provocações e calúnias, os ataques às entidades estudantis e até as agressões físicas ocorreram com o protagonismo ou com a cumplicidade dos grupos da ultraesquerda.

A política da juventude do PSTU
A juventude do PSTU elabora sua política a partir de critérios totalmente distintos daqueles usados pela ultraesquerda. Em nossa opinião, a disposição de luta e a radicalização da vanguarda, quando não são orientadas por uma análise sóbria e precisa da realidade, podem levar a erros políticos.

Tomar em consideração a consciência da massa e a correlação de forças na hora de elaborar uma política não significa rebaixar nosso programa. Pelo contrário, significa encontrar as consignas e as propostas corretas para colocar setores de massa em movimento, abrindo, dessa forma, a oportunidade do avanço na consciência de milhares.

A reivindicação de “eleições diretas para reitor”, por exemplo, cumpriu um papel fundamental no início da luta. Embora não seja uma proposta que acabe com a estrutura de poder na universidade, ela denuncia uma das maiores expressões da falta de democracia na USP. O diálogo e a mobilização construídos pelo DCE em torno dessa pauta possibilitaram a ocupação da reitoria e a greve geral estudantil.

A aventura e o isolamento, também, não são nossos objetivos. Os sacrifícios individuais não garantem a vitória de nossas mobilizações. É preciso ligar a determinação dos setores avançados do movimento com as massas. O movimento tende a ser tão mais forte e vitorioso quanto mais setores de massas conseguir incorporar.

Esse método nos fez defender a necessidade do movimento recuar de forma organizada, saindo da greve e encerrando a ocupação, mesmo sem conquistar todas as reivindicações. Nossa intenção era garantir as vitórias parciais, evitar a possível repressão iminente com a reintegração de posse e, assim, acumular forças para as próximas lutas.

Construir um plano de luta unificado em 2014
A mobilização que os estudantes da USP travaram em 2013 foi uma pequena demonstração da força do movimento estudantil. A atual contraofensiva repressiva da reitoria e do governo do estado não vai nos calar. Apesar dela e da política nefasta da ultraesquerda, a luta pela democratização da USP deve seguir.
Acreditamos que movimento precisa se reorganizar em torno de sua própria defesa, contra as possíveis sindicâncias e os inquéritos criminais. Essa é a tarefa mais urgente. Para vencermos essa batalha, será necessário abandonar todo tipo de vanguardismo.

É preciso resgatar os melhores momentos de nossa luta, quando o movimento reunia milhares de estudantes e disputava politicamente a opinião pública da comunidade universitária e da sociedade. Em 2014, a luta pela democratização da USP começa pela unificação de toda a comunidade universitária. Mas precisa ir além, ligando-se à classe trabalhadora, por meio de ações unitárias concretas.

Essa unidade já tem data para se iniciar. No mês de março do ano que vem, a CSP-Conlutas vai organizar uma Plenária Nacional dos movimentos sindical, popular e estudantil, para debater e construir um plano de luta comum, que unifique estudantes e trabalhadores contra as injustiças da Copa do Mundo e a criminalização dos movimentos sociais.

As lições da mobilização que se encerra serão fundamentais para construirmos os acertos políticos do futuro. Desde a Calourada, a juventude do PSTU estará a serviço da retomada do movimento estudantil da USP. Conte conosco!

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